Memex – “As we may think”

Abaixo encontra-se o link para uma tradução de parte do texto. É só uma uma questão de facilitar um pouco a vida de vocês.

“COMO PODEMOS PENSAR”
Tradução de partes selecionadas do artigo “As We May Think”*, de Vannevar Bush.
Que benefícios permanentes a ciência e a tecnologia têm trazido para o ser humano? A ciência e a tecnologia, em primeiro lugar, aumentaram o controle do ser humano sobre o seu meio ambiente material, ajudaram-no a melhorar seu alimento, sua vestimenta, seu abrigo, e deram-lhe mais segurança. Tudo isso permitiu que ele vivesse acima do nível da mera subsistência. Mas, em segundo lugar, a ciência e a tecnologia também possibilitaram ao ser humano maior conhecimento dos processos biológicos que se passam em seu próprio corpo, permitindo que ele, progressivamente, se tornasse mais livre de doenças e, assim, aumentasse a duração de sua vida. Além disso, elas iluminaram as interações existentes entre suas funções fisiológicas e psicológicas, dando-lhe promessa de melhor saúde mental. Em terceiro lugar, a ciência e a tecnologia contribuíram para que melhorasse a comunicação entre os indivíduos, ajudando o ser humano a registrar suas idéias, capacitando-o a manipular esse registro de idéias e a construir em cima da experiência legada pelos seus antepassados. Desse modo, o conhecimento humano pôde não só evoluir, mas também perdurar, tornando-se valioso não só para os indivíduos que o geraram, mas para toda a raça humana. O conhecimento humano vem crescendo assustadoramente e vem se tornando cada vez mais especializado. À medida que o conhecimento cresce e a especialização se estende, mais complicado se torna o nosso acesso a esse monumental acervo. O investigador fica perplexo quando tem que lidar com o produto da pesquisa de milhares de colegas – não tendo tempo para ler, muito menos para analisar e memorizar, tudo o que é publicado, mesmo em sua área de especialização. A especialização talvez seja a única maneira de fazer o conhecimento progredir. Mas os esforços de construir pontes entre as várias disciplinas especializadas ainda é incipiente e artificial. Profissionalmente, nossos métodos de transmitir e analisar os resultados da pesquisa são antiquados e totalmente inadequados aos propósitos para os quais os empregamos. Se o tempo total usado para escrever trabalhos de pesquisa e para lê-los pudesse ser avaliado, a razão entre o tempo dedicado a uma e a outra coisa iria surpreender. Aqueles que conscientemente tentam se manter em dia, através de leitura atenta e contínua, com o pensamento corrente, mesmo em campos muito restritos, hesitariam em se submeter a um teste que verificasse quanto do conteúdo lido poderia ser reproduzido, se ou quando necessário. As leis da genética de Mendel ficaram perdidas por uma geração porque sua publicação não alcançou os que seriam capazes de entendê-las e de estendê-las. Esse tipo de catástrofe indubitavelmente acontece também hoje, e realizações verdadeiramente significativas se perdem, ficando enterradas em uma montanha de informações sem maior conseqüência. A dificuldade parece ser, não tanto que publicamos mais do que deveríamos, dada a extensão e a variedade de nossos interesses atuais, mas, sim, que as publicações se estenderam muito além de nossa capacidade atual de fazer real uso delas. O registro das idéias humanas expandiu-se prodigiosamente – e, entretanto, os meios de que nos valemos para tentar encontrar algo de importante nesse labirinto de idéias são os mesmos que utilizávamos quando havia muito menos coisa para pesquisar. Um registro de idéias, para ser útil, deve ser cuidadosamente abastecido, continuamente estendido, e, acima de tudo, freqüentemente consultado. Hoje fazemos o registro escrevendo, fotografando, gravando. O que escrevemos, fotografamos e gravamos é guardado em papel, em filme, em disco. Mesmo
que meios mais revolucionários de armazenamento não apareçam, os atuais serão aperfeiçoados e expandidos. E os meios de transmissão do conhecimento também se ampliarão e se tornarão mais eficazes. [Dadas as taxas de miniaturização e compressão que vêm sendo desenvolvidas, é concebível que, em pouco tempo,] a Encyclopaedia Britannica
possa ter o seu tamanho reduzido ao de uma caixa de fósforos e que uma biblioteca de um milhão de volumes possa ser acomodada em cima de uma escrivaninha. Se tudo o que a raça humana produziu até hoje, desde que foi inventada a imprensa, na forma de livros, revistas, folhetos, etc., corresponder a, digamos, um bilhão de livros, todos eles, reunidos e comprimidos, poderão vir a ser transportados em um caminhão fechado.
Mas meramente comprimir não é bastante. Além de registrar e armazenar, é preciso, principalmente, consultar. Mesmo as bibliotecas de hoje não são suficientemente consultadas: apenas uns poucos fazem uso real do que nelas se encontra. Sobre isso falarei mais adiante. Aqui se registre o fato de que, embora não seja suficiente, a compressão é importante. Quando a Britannica for comprimida e passar a ter o tamanho de uma caixa de fósforos,
imprimi-la custará poucos centavos e enviá-la pelo correio menos ainda. O custo de imprimir e distribuir um milhão de cópias da Britannica será pequeno. Quanto ao processo de registrar as idéias, hoje usamos lápis ou máquinas de escrever. O que escrevemos é, em seguida, submetido a laborioso processo de edição e correção, seguido de processo complicado de composição, impressão e distribuição. Considerando apenas o primeiro estágio desse processo (transcrição), chegará o dia em que os autores deixarão de escrever a mão ou a máquina e apenas usarão sua voz, encarregando-se a tecnologia de transformar a voz em texto que poderá ser acrescentado ao registro de idéias.
Mas chega de discutir maneiras de inserir idéias no registro. Mesmo em suas dimensões atuais, mal conseguimos consultá-lo, imagine-se se for grandemente ampliado. Vamos discutir o processo de consulta do registro. Essa é uma questão muito mais ampla do que a mera extração de informações para fins de pesquisa científica, pois envolve todo o processo através do qual o ser humano se beneficia da herança que consiste do conhecimento adquirido pelas gerações anteriores. A ação principal nesse processo de consulta é a seleção do material – e aqui estamos engatinhando. Pode haver milhões de idéias brilhantes no registro das idéias humanas e das experiências em que se baseiam essas idéias. Mas se só conseguirmos encontrar uma dessas idéias por semana, nossa capacidade de absorvê-las e sintetizá-las não acompanhará sequer o ritmo em que novas idéias são produzidas. Já tem havido algum progresso. Usando cartões perfurados, uma máquina pode hoje selecionar, em pouco tempo, todos os empregados de uma empresa que falam espanhol e moram em Trenton. Mas esse processo é muito lento. Além do mais, a forma de seleção é simples: ela se dá comparando cada um dos itens com uma lista de características especificadas. Há outras formas de seleção q ue são mais aperfeiçoadas. Uma delas pode ser vista no processo de comutação telefônica automática. Você disca um número e a máquina seleciona apenas uma dentre cerca de um milhão de estações para fazer a conexão. Não precisa contatar todas. Ela leva em consideração, de início, apenas o primeiro dígito, depois uma subclasse desse dígito definida pelo segundo dígito, e assim por diante. Dessa forma, o processo é completado rapidamente e quase sempre sem erro. Hoje usamos cartões perfurados para armazenar a informação. Mas
poderemos vir a utilizar pequenos cartões de aço nos quais são impressas marcas magnéticas. Ou poderemos vir a usar meios de armazenamento óticos. Com esses novos meios poderemos armazenar muito mais informações e eles permitirão que elas sejam recuperadas muito mais rapidamente, até mesmo através de instruções faladas em um microfone. Mas a maior dificuldade na seleção de materiais não está tanto no fato de que os meios de armazenamento são lentos ou no fato de que as bibliotecas demoram em utilizá-los. Nossa principal dificuldade em encontrar as informações de que precisamos estão relacionadas à superficialidade dos
sistemas de indexação adotados. A informação é normalmente indexada ou em
ordem alfabética ou em ordem numérica.
Mas a mente humana não funciona dessa forma. Ela não opera por
ordenamento alfabético ou numérico. Ela opera por associação. Quando ela
apreende um item, ela salta imediatamente para o próximo que lhe é sugerido
por associação de idéias, em função de algum processo complexo de
elaboração de “trilhas” que é executado pelo seu cérebro. Esse processo de
associação, porém, tem alguns aspectos negativos: as trilhas se apagam, os
itens e as associações que produzem não são permanentes, a memória é
transitória. Contudo, a velocidade da ação, a complexidade das trilhas que nos
levam de uma idéia a outra, o nível de detalhe das imagens mentais, tudo isso
é mais assombroso do que qualquer outro fenômeno que a natureza possa nos
oferecer.
O ser humano não será capaz de duplicar esse processo artificialmente,
mas ele certamente é capaz de aprender com ele – e, em pequenos aspectos,
até mesmo de aperfeiçoá-lo. A primeira coisa a chamar a atenção no processo
é a forma de seleção. A seleção de idéias por associação, em vez de por
ordenamento alfabético ou numérico, pode ainda vir a ser automatizada. Mas
dificilmente será possível igualar a velocidade com que a mente humana faz
associações, estabelecendo trilhas entre idéias. Entretanto, certamente será
possível ultrapassar a mente humana em relação à permanência e a clareza
dos itens recuperados do registro de idéias.
Consideremos um dispositivo futuro para uso individual, que é um misto
de arquivo e biblioteca – pessoal e privado. Esse dispositivo precisa de um
nome: vamos chamá-lo de “memex”. Um memex será um dispositivo em que
o indivíduo armazenará seus livros, seus registros, suas anotações, suas
comunicações. O dispositivo será mecanizado de modo a poder ser consultado
com extrema velocidade e flexibilidade. Digamos que seja um suplemento
íntimo à nossa memória: uma grande expansão da memória pessoal.
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Um memex será, basicamente, uma escrivaninha – embora,
presumivelmente, possa ser operado à distância. Em cima da escrivaninha
haverá uma tela inclinada, em que vários materiais poderão ser exibidos
(“projetados”) para leitura conveniente. Na frente da tela haverá um teclado e
conjuntos de botões e manivelas. O dispositivo terá capacidade de
armazenamento virtualmente ilimitada (digamos que, se o indivíduo
introduzisse nele 5.000 páginas por dia, ainda assim levaria anos para enchêlo).
Dados os materiais usados para armazenamento e as técnicas de
compressão, o espaço devotado a armazenamento não precisará ser grande.
Além da tela, do teclado e do espaço para armazenamento, o memex terá
mecanismos para recuperar informações.
O conteúdo informacional do memex será, em sua maior parte, comprado
pronto: livros de todos os tipos, fotografias, periódicos, jornais, etc. Eles serão
adquiridos em microfilme e inseridos no dispositivo. A correspondência será
filmada e colocada lá. E o indivíduo poderá inserir materiais diretamente,
usando o teclado ou usando uma espécie de lousa onde ele escreverá a mão.
Qualquer coisa escrita nessa lousa, ou colocada sobre ela (como uma foto ou
um memorando), será fotografada e armazenada no quadro seguinte do
microfilme virgem do memex.
Haverá, naturalmente, formas de consultar o material inserido no memex
usando técnicas convencionais de indexação. Se o indivíduo quiser consultar
um livro específico, bastará digitar seu título e a página de rosto do livro será
exibida na tela. Materiais freqüentemente utilizados poderão receber códigos
mnemônicos, de modo que o simples apertar de uma tecla trará o material
desejado para a tela. Além disso, as manivelas poderão ser usadas para passar
os olhos rapidamente pelo material – digamos, por um livro – para frente e
para trás. Um botão levará o leitor imediatamente para a primeira página,
outro botão, para a última. Qualquer livro da coleção poderá, assim, ser
consultado muito mais facilmente do que acontece em uma biblioteca. Na tela
poderão ser sobrepostas várias imagens. Pelo teclado, ou usando algum tipo
especial de caneta, o indivíduo poderá acrescentar anotações e comentários
nas margens do texto lido.
Até aqui, o sistema descrito é relativamente convencional. Contudo, ele
deverá permitir o estabelecimento de índices associativos, cuja idéia básica é
fazer com que um item selecione, imediata e automaticamente, um outro, com
o qual foi associado. Esta será a característica essencial do memex. Esse
processo de ligar um item ao outro é o que será importante.
Quando o indivíduo desejar construir uma associação, ele dará um nome à
trilha de associações e registrará esse nome em um livro de códigos e, usando
o teclado, no próprio memex. O indivíduo trará para a tela os itens que quer
interligar e, usando um indicador voltado para um de vários espaços em
branco em sua parte inferior, os interligará. Em cada um dos itens interligados
aparecerá, no que era um espaço em branco, o nome dado à trilha de
associações. O memex se encarregará de manter a ligação dos itens
associados, mesmo que eles estejam armazenados em locais completamente
diferentes dentro do dispositivo. Assim sendo, cada vez que o indivíduo
visualizar um dos itens, saberá, pelos nomes colocados na parte inferior, que
há outros itens associados àquele, e será capaz de imediatamente recuperálos,
apertando um botão. Se houver muitos itens associados, o indivíduo
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poderá indicar que quer consultá-los usando as manivelas, como se eles
estivessem dispostos de maneira seqüencial e formassem um novo livro.
Contudo, continuará a existir apenas uma cópia de cada item e um mesmo
item poderá fazer parte de várias trilhas associativas.
Digamos que o dono do memex esteja interessado em arcos e flechas.
Imaginemos que ele esteja estudando porque os arcos turcos eram superiores
aos arcos ingleses durante as Cruzadas. Ele procura em uma enciclopédia e
acha uma breve referência pertinente, que deixa exibida na tela. Em um livro,
acha outra referência, que é associada à anterior e também deixada na tela.
Outros materiais são acrescentados, formando uma trilha de associações.
Eventualmente ele introduz comentários próprios, que ficam arquivados,
associados ao material já assinalado. Quando ele descobre que a principal
diferença entre os dois tipos de arco tinha que ver com sua elasticidade, passa
a procurar informações sobre a elasticidade de materiais. Novamente ele
introduz comentários seus. Dessa forma, todo o material fica fazendo parte da
mesma trilha e todo o caminho percorrido, ou o processo utilizado para
elaborar a trilha, fica traçado.
E a trilha não se apaga. Anos mais tarde, em uma discussão com amigos
sobre como invenções mais criativas às vezes são deixadas de lado em função
do fato de que o ser humano resiste a inovações, ele se lembra do caso dos
arcos turcos. Com o teclado, os botões e as manivelas ele rapidamente localiza
todo o material que havia levantado na ocasião anterior, inclusive com seus
comentários. Como o material é pertinente à discussão, ele aperta um botão
que reproduz os itens associados, através de processo fotográfico, e dá a cada
um de seus amigos uma cópia da trilha, para que eles possam introduzir o
material em seus próprios memexes, se assim o desejarem, fazendo, assim,
com que trilhas pessoais sejam interligadas em trilhas mais amplas e gerais.
Desse modo, novas enciclopédias aparecerão, cheias de trilhas prontas,
produto do trabalho de muitos indivíduos. As trilhas contidas no memex de um
experiente advogado, que interligam casos análogos e os associam a legislação
e a jurisprudência pertinentes, bem como a acórdãos e julgados, poderão ser
compartilhadas com colegas mais jovens fazendo com que a experiência
daqueles beneficie a estes, menos experientes. O médico, perplexo diante de
um caso inédito, poderá encontrar, nas trilhas de outros colegas, pistas
importantes. O historiador… E assim por diante. A herança que os mestres
transmitirão aos discípulos não será mais apenas o produto de suas conclusões
maduras, mas todo o processo utilizado para chegar a elas, todo o andaime
usado na construção do edifício final.
Desta maneira, seremos capazes de implementar e distribuir, para uso
geral, as formas em que o ser humano produz, armazena e utiliza o
conhecimento. Presumivelmente, o espírito dos indivíduos será elevado, se
eles puderem rever melhor seu passado sombrio e analisar mais completa e
objetivamente seus problemas presentes. O ser humano construiu uma
civilização tão complexa que ele hoje precisa mecanizar o registro de suas
idéias e suas experiências para poder levar o seu experimento às suas
conclusões lógicas, sem ficar preso no meio do caminho por sua limitada
capacidade de memória. Suas aventuras no mundo das idéias serão muito
mais prazerosas e frutíferas se ele puder livremente se esquecer das muitas
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coisas de que não necessita no momento, certo de que poderá ter acesso a
elas, se isso se tornar necessário.
As aplicações da ciência e da tecnologia ajudaram o ser humano a fazer
desta terra uma casa bem abastecida, e o estão ajudando a viver nela de
maneira sadia. Mas essas aplicações também lhe permitiram jogar multidões
de pessoas umas contra as outras, com armas cruéis nas mãos. Apesar disso,
a mesma ciência e tecnologia podem, ainda, ajudar o ser humano a dominar o
grande registro de suas idéias e a crescer em sabedoria usando a experiência
da raça humana. Talvez ele pereça em conflito, antes que consiga aprender a
usar essa experiência acumulada para o seu próprio bem. Mas seria uma
infelicidade extrema que o processo terminasse assim – ou que hoje
perdêssemos a esperança de que ele possa evoluir de maneira diferente.
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* Este artigo foi publicado em The Atlantic Review, em julho de 1945. A tradução não
é do artigo completo, mas apenas de partes selecionadas, e foi realizada por Eduardo
O. C. Chaves, com base no texto reimpresso em Steve Lambert e Suzanne Ropiequet,
orgs., CD-ROM: The New Papyrus – The Current and Future State of the Art (Microsoft
Press, Redmond, 1986). Vannevar Bush foi um pioneiro em projeto de computadores
que também se distinguiu como engenheiro, administrador e funcionário público. Em
1941 tornou-se, por nomeação do presidente F. D. Roosevelt, o primeiro diretor do Office of Scientific Research and Development do governo americano, órgão responsável pela coordenação de pesquisas realizadas para o Departamento de Defesa dos Estados Unidos por universidades e institutos de pesquisa.

Abraço
Rodrigo Caxias

Fonte: http://www.ccje.ufes.br/dci/tec2/arquivos/TI220091AsWeMayThinkTraducao.pdf

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